sábado, 26 de agosto de 2017

Conceição



 


             Morena-jambo. Bonita da cabeça aos pés. Tudo nela era bonito: os cabelos castanhos, o rosto limpo e sem marcas, os olhos meigos e doces, o nariz perfeito, a boca carnuda e os dentes branquíssimos. Com um sorriso ela poderia conquistar o que quisesse. Alta e elegante. De uma elegância natural, sem manual. Assim era Conceição.

               Sentada no batente da porta da casa, da pequena casa que eles construíram com muito sacrifício, ela dava o peito ao filho e pensava nas tarefas que ainda faria.

               O pequeno largou o peito um instante. Ela puxou o sutiã. Acomodou o peito cheio de leite. Ajeitou a blusa. Levantou-se com cuidado para não acordar o pequeno.

               A tarde caminhava para o fim e a janta do seu homem não estava pronta. Os braços estavam mortos de cansaço do peso do filho. Cansaço e tristeza no olhar. Solidão.

              Conceição queria dormir. Queria dormir três dias seguidos. O pequeno mamava dia e noite sem parar. Até parece que tinha nascido no dia da fome. O pequeno vivia pendurado no peito dela, por isso ela estava pra cair de sono. Tinha roupa de molho pra espremer, tinha a janta do Valmir pra fazer. Tinha que trocar as roupas de cama, lavar as louças, limpar o fogão e varrer a casa. Tinha que fazer tudo isso até a hora da janta, pra ele não ter nenhum motivo pra reclamar. Eram quatro horas da tarde e ela queria dormir e acordar numa fazenda como aquela do calendário na cozinha. Ela queria dormir. Descansar. Ser feliz.

              Levantou-se com o pequeno pendurado. Limpou as nádegas com a mão. O outro filho brincava no terreiro em frente da casa. Passou a vizinha e disse  “Conci, a Nazaré voltou!” Havia alegria na voz dela.

              Conceição fez “legal” com o polegar. Mas estava aborrecida com a vizinha que devia-lhe 50 reais. Estava devendo e se fazendo de lesa. Ontem ela estava tomando todas e não se lembrava de pagar os outros “é melhor deixar pra lá!” pensava. Conceição não iria cobrá-la. Não tinha coragem de cobrar os outros. O melhor era esquecer os 50 reais.   A vizinha tinha sido largada pelo marido. Conceição pelo menos tinha seu homem. É verdade que às vezes sofria agressão. Mas ele só batia por causa da bebida.

               Valmir era um homem trabalhador. Comprava as coisas pra dentro de casa e era asseado. Ela tinha horror a homem porco. Seu homem tomava banho pelo menos três vezes ao dia: o primeiro era bem cedinho antes de ir trabalhar, o segundo quando voltava do trabalho e o terceiro antes de dormir. Três banhos sagrados e com sabonete Phebo. Ele era asseado, tinha bons dentes e nenhuma dermatite. A pele dele era limpa e macia como a pele de um bebê. E era enjoado pra dormir. Sempre perguntava se ela tinha trocado a colcha de cama, perguntava se tinha fervido as toalhas. As toalhas de Conceição eram conhecidas da rua inteira daquele bairro de invasão. Todo mundo sabia que as toalhas de Conceição doíam na vista de tão brancas que eram... e as panelas? As panelas eram verdadeiros espelhos.

              Valmir era asseado e trabalhador. Seu problema era a bebida no final de semana. Bebia e batia nela. Todo final de semana era a mesma coisa. Bastava dois ou três copos de cachaça que ele tomava pura e... pronto! Foi-se o homem direito! Ele virava bicho, chegava a casa e a surra comia no centro.

              Conceição com o tempo aprendeu a se defender. Primeiro ela gritava e se revoltava: apanhava mais ainda. Depois pegou o macete: ficava quieta e calada e ele logo, logo parava de bater. Então ficou assim: quieta e parada com aquela tristeza sem fim nos olhos.

               Na segunda-feira ele perguntava:

               - Que foi esse machucado no teu olho?

               E ela respondia tristemente:

               - Tu me bateste de novo. – e chorava baixinho pra vizinha não escutar.

               Ele se desculpava e prometia não bater mais. Dizia que ia parar de beber. Toda segunda-feira era dia de promessa.

               Conceição ia levando a vida com a pancada semanal. Mas Valmir era trabalhador e trazia comida pra dentro de casa, era asseado e não era mulherengo. Ele se orgulhava de sua nega. Dizia “só tenho uma neguinha e pronto... tá acabado!” Todo mundo da rua sabia que era verdade. Sabia que ele gostava dela e não dava confiança pra nenhum rabo de saia.

               Conceição tinha uma alegria. Era ver a professora passar. A professora passava uma hora da tarde com os livros nos braços. Era tão bonito vê-la passar assim carregando os livros nos braços.

               Conceição não concluiu o ensino médio. Estava iniciando o terceiro ano, quando engravidou do primeiro filho. A partir daí a mãe dela vivia dizendo que ela não prestava pra estudar. Que ela era burra e que só queria saber de homem. Não era verdade. Conceição era inteligente. Lia romances e escrevia poemas numa agenda velha. Poemas que mostravam muita sensibilidade e caráter. Ela se identificava com os elementos da natureza. Adorava a lua. Via na lua uma aliada. Quantas vezes ela, num diálogo feminino, não se queixou à lua. Também falava de seus sonhos e devaneios.

               Os poemas de Conceição eram exatamente seu relacionamento com a Lua, sua identificação e seus projetos de felicidade que ela considerava correr atrás do vento. O poema preferido dela era:

                                      Lua & Vento

                                      A lua

                                      Quando fica debruçada na janela da noite,

                                      Vê as meninas nas calçadas,

                                      Pensativa fica.

                                      A lua é outro eu impossível...

                                      É móvel sem que se note,

                                      É versátil sem que se sinta.

                                      Coroa flores,

                                      Manipula amores.

                                     A lua é o sol disfarçado,

                                     As estradas que o digam.

                                     Vejo agora a lua

                                    Que não sou eu

                                    Que não é de ninguém.

                                    As meninas das calçadas

                                    Agora correm atrás do vento...

                                    A lua é o vento.

               Sua agenda velha era o seu tesouro. Suas tarefas diárias não eram agendáveis. Eram tarefas sabidas de todos os dias e naquelas páginas perdidas de compromissos ela escrevia poemas, mas não mostrava a ninguém. Sua mãe dissera que ela era burra, que não prestava pra estudar e ela acreditou.

               Quando a professora passava, Conceição acenava um “tchauzinho”, sorria e pensava “ela deve ser muito inteligente... com esses livros todos...!” O sonho dela era ser professora, por isso ela se projetava nos passos de Arlete quando esta ia à escola. Ela devorava aqueles livros que a professora carregava e por um instante podia sentir o peso benéfico do conhecimento. Uma noite ela disse pro Valmir que queria voltar a estudar e a resposta foi “Estudar pra quê? Tu não tens tudo?! Eu sei das histórias das mulheres que estudam à noite... são todas safadas!”.

               Caminho bloqueado.

               Muralha.

               Não. Ela não tinha tudo, ela não era feliz. Só tinha a professora que passava uma hora da tarde.

               Conceição tinha dois filhos. O primeiro de sete anos era de seu primo e o segundo, do Valmir.

               A vida difícil de muito trabalho deixava Conceição estressada. Dois filhos pra cuidar. Dois meninos e um homem asseado. Cuidar da casa, da roupa, da comida e pancada nos finais de semana. Ela não saía nunca que o Valmir não era besta. Conceição era de uma beleza de parar o trânsito. Um metro e setenta e cinco de pura elegância e aquele doce sorriso.  Ela poderia ser modelo. Apesar dos dois filhos, não tinha barriga e não engordara nadinha. Continuava magra e elegante. As pessoas juravam que os meninos não eram dela. Mas eram. Os dois. Um do primo e o outro do Valmir.

               Ela até poderia ser feliz se não fossem as pancadas no domingo.  Às vezes ele não batia, quando tinha um bico pra fazer. Mas era uma raridade.

               Um dia ela reclamou do Valmir para uma amiga e a amiga disse:

               - Quer trocar? O meu é beberrão, imundo, preguiçoso, mulherengo e me bate por qualquer motivo.

               Conceição protestou:

               - Como é que tu consegues ficar com um traste desses?

               - Eu gosto dele!

               Conceição balançou a cabeça desalentada.

               A vida da amiga era realmente terrível. Mas Conceição não achava um grande privilégio essa sua união com o Valmir. Porque pensava “ele me bate porque não me ama. Se amasse, não me trataria mal e já teria parado de beber.”

               Foi na época do Círio que tudo aconteceu. A vizinha contava chorando pras outras e ninguém queria acreditar naquela fatalidade.

               O Valmir, naquele domingo de Círio, chegou porre e quis bater no menino de um ano que ainda mamava. Desconheceu seu próprio filho e Conceição avançou como uma onça pra defendê-lo. Ele a empurrou e ela caiu. Bateu a cabeça na quina da mesa. Um baque fatal.

               Domingo à tarde, na delegacia, o Valmir todo choroso, assim meio porre, explicava-se ao delegado. Mas não negou que a empurrara. O delegado ficou revoltado com aquela história. E o Valmir não tinha consciência total do que tinha acontecido.

               Segunda-feira, quando a professora passou, estranhou aquela janela vazia. Parou um momento. Quis ir à casa de Conceição, mas olhou o relógio e pensou que se atrasaria se perdesse o ônibus. Ela era uma boa professora e não chegaria atrasada. Andou mais alguns passos e mais uma vez parou e se voltou para ver se Conceição aparecia na janela. Nada. Pensou em ir vê-la, mas perderia o ônibus e chegaria atrasada. Ela pensou “quem disse que não posso chegar atrasada um dia?” e foi ver Conceição.
                                                                  ***





quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Raquel de Flor

De flor em flor... o amor.
Uma pessoa não precisaria ser só pessoa. Uma pessoa também poderia ser flor que eu deixaria!...
Assim, gente-flor nasceria mais e o planeta seria mais bonito, mais atraente, mais colorido, mais perfumado. Enfim, o planeta seria mais Raquel!...
A metáfora pode não ser inédita, mas revela todo o meu carinho por você RAQUEL MONTEIRO. Carinho que se traduz nesta metáfora de jardineira que sou. 
As flores são perecíveis eu sei, mas ninguém desacredita delas porque há beleza, há cheiro e os poetas precisam demais delas para compor. 
As flores são perecíveis, é verdade! Mas o importante á alegria que sentimos ao vê-las... desabrochando para o sol e as estradas seguem nesta mesma direção de riso, de felicidade.
As flores são nossas amigas, todo mundo sabe disso. E hoje é um dia de flor por excelência. Um dia de flor-menina que Deus nos concedeu para que a vida também fosse feita de amor.

FELIZ ANIVERSÁRIO, MINHA PRINCESA!

Luzia Almeida

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Eu tenho um amor...

... e hoje é seu aniversário!
Bom pra mim que gosto de escrever, que vivo escrevendo sobre as cordas do meu coração.
Bom pra mim que tenho tanto a agradecer a Deus por ter me dado um bom marido: carinhoso e sensível.
Então, junto com as orquídeas desse dia eu quero sentir essa luz magnífica que é a própria vida e o que ela me traz: vontade de viver cada vez mais com quem eu amo.
Olha só!
Há um sossego nesse dia de luz.
Há um caminho de estrelas
e um encontro de poemas pululando como borboletas inquietas. Tudo, tudinho marcando a existência dele que me faz feliz muito além daquilo que eu esperava. E a felicidade se descortina num espaço cotidiano onde de flor em flor eu me fio nesse tecido de amor.

Humphrey, feliz aniversário!

Luzia Almeida

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Menina-moça

A Literatura é um veículo de amor e de descoberta. Todos os que amam e lêem poderão concordar comigo e a intertextualidade é a prova de que as escritoras MARINA COLASANTI e MARIA LÚCIA MEDEIROS são grandes inventoras de sentimentos, esses mesmos de que somos capazes:
                                       Menina-moça
         A moça tecelã estava farta de solidão, mas não iria correr o risco de tecer outro marido que suas costas ainda estavam doendo de tantos palácios e cavalos. Levantou-se depois de tecer a lua e foi sentar-se num banquinho próximo a uma mangueira em frente de sua casa e pôs-se a contemplá-la. E a noite transcorreu sem novidades.
          Na manhã seguinte ficou andando pela cozinha à procura de uma ideia. O peixe já estava no sal e no limão e o cheiro-verde lavado e cortado junto com a cebola e o tomate. Só faltava três folhas de chicória que ela pegaria no quintal.
        Ela pensava num tempo longe, de umas férias... quando teve a ideia “Por Zeus! Aquela menina do volkswagen azul... Vou tecê-la!” E assim sentou-se ao tear e começou com uns tons de rosa quando concluiu alguém bateu no seu ombro.
           - A senhora não teria umas bananas... bem maduras?
          A moça tecelã sorriu e disse:
          - Tenho sim. Estão lá na cozinha.
          A menina virou-se bruscamente e derrubou um vaso. Assustada pediu desculpas.
           A moça disse:
          - Cuidado com meus vasos!...
          A menina meio assustada entrou na cozinha e falou alto pra moça ouvir:
          - As bananas estão verdes!
          A moça sorriu novamente da menina que retornando à sala pisou no gato que arrepiado fugiu para o jardim.
           A moça entendeu que a menina não estava enxergando direito e pergunto:
          - Você usa óculos?
          A menina respondeu:
          - Só na escola.
       - Mas, sem óculos você não vê direito. Não se incomoda com isso?
          E imediatamente virou-se para o tear para tecer os óculos.
          A menina ficou meio contrariada e disse:
          - Não precisa. Não gosto de óculos. Se é pra usar o tear prefiro outra coisa.
          - O que por exemplo. O que você quer?
          - Uma professora bonita com as sobrancelhas bem feitas, com uma saia colorida cheia rosas e...
          A moça começou a rir:
           - Por que sobrancelhas bem feitas?
           - Porque a minha professora tem as sobrancelhas do Monteiro Lobato – e riu envergonhada.
          A moça se curvava de tanto rir, mas começou a tecer umas sobrancelhas bem delineadas. Perguntou:
          - Assim? – apontando para o desenho.
          A menina gostou e respondeu:
          - É!
          A moça já iria concluir a saia florida da professora... Perguntou:
          - Só isso?
          - Não, falta giz. Quero giz colorido pra desenhar cachorro de coleira e sapatos.
          - E na sua escola não tem giz colorido?
          - Tem, mas são úmidos!...
          A moça pegou sua caixa com as lãs mais caras e foi perguntando a menina e a menina foi dizendo as cores que ela queria pra desenhar na escola.
          Concluíram o trabalho. A moça perguntou:
          - E o quê mais?
          - Quero esmalte.
          - Esmalte?
          A moça olhou pra unhas da menina. Disse:
          - Mas você rói as unhas!...
          A menina escondeu as mãos:
         - Por favor, quero uma cor bem bonita para combinar comigo!...
          - E que cor seria essa?
          - Rosa-bebê. Eu sei que ainda sou uma menina, mas logo, logo serei moça como você...
          - É mesmo?!... E rosa-bebê combina com você?
          - Combina com minha idade, não comigo.
          - Ah, você muito é inteligente!
          - Sou?
          - Muito!
          - Mas eu não sei qual é a capital da Checoslováquia?
          - E quem se importa com isso?!... Eu também não sei!
     As duas ficaram rindo, mas um clima de responsabilidade pairou e a menina disse:
          - Preciso ir.
          - Já?!... – a moça exclamou tristemente.
          - Hoje é sábado e preciso ajudar minha mãe.
          - Sério? Você é tão...
          - Pequena! – a menina exclamou sorrindo.
          Era hora de partir e as duas estavam tão envolvidas que o sábado tinha perdido seu sentido primeiro de perfeição. Agora era uma lanchonete pra passear, uma moça pra conversar, uma professora bonita com saia florida e giz para desenhar cachorro de coleira e sapatos.
          A menina já estava chegando à porta e virando-se disse:
          - Meus óculos têm lentes claras.
          E sorrindo fechou a porta.
          A moça ficou se perguntando: “Por que será que ela me disse isso?
                                                      ***
                                              Luzia Almeida